Um conto de Natal




Por Francisco José 

O vento  morno que vinha do rio, invadia a casa e os corpos que nela habitava. Um suor pegajoso se misturava a dor que saía pelos seus poros e de suas entranhas. O menino queria vir e parecia que ia desvirginá-lo de dentro para fora.

A dor tinha começado logo depois de meio dia. Um tempo onde todos dormem debaixo de um sol pesado na sombra de suas casas. A mãe temia pela morte da única filha. Sofria com ela todas as dores. Tinha percorrido as casas da Vila do Itapéua, um pequeno povoado em meio a Floresta. Em cada casa um rogo, um pedido por uma remédio, um óleo, uma garrafada, uma banha de cobra ou de outro animal, uma reza que pudesse fazer parar a dor. E nada.

Essa dor só para quando o menino nasce, disse o rezador da Vila.
E o pai? Alguém perguntou. Vem aí no ônibus, um outro respondeu. José, José. 
Tinham aparecido vários carros na vila, mais nenhum abriu a porta para Maria, uma jovem pobre, vestida em seus quase nada e com um barrigão enorme.

A chegado do ônibus criou tanta esperança, parecia que era a primeira vez que ele chegava na Vila. O motorista, jovem, não queria transportar Maria. Tinha medo do menino nascer pelo meio da estrada.
Maria olhava para o jovem motorista com olhar suplicante. Pedindo. Implorando. Entra. E partiram. Na força que fez ao entrar no ônibus, sentiu que algo se rompeu dentro dela.

A chuva começou a cair fortemente. A Estrada cheia de lama e buracos. O ônibus saculejava. Ia para um lado, para o outro. Seguia em frente. Escurecia. Em cada saculejo um jorro de sangue. 
A dor. O sangue. José estava mais nervoso que a mãe. Pararam numa casa, não havia ninguém. Pararam em outra, som alto e muita bebida, era difícil ajudar.

A lama, os buracos, a escuridão, o ônibus avançava lentamente.
Alguém na estrada. O ônibus parou. Ele entrou. É seu Daia, alguém gritou. Velho andarilho da estrada. Molhado. Olhos cheios de brilhos. Olhou Maria ao lado de José. Uma mãe em serviço de parto. Pare gritou o ancião, o menino está nascendo.

E nasceu. Entre riso e lágrimas, Maria e José ouviam os aplausos de todos. Era a alegria do povo pobre da estrada que recebia o filho de Maria e José com todo amor.

Fora, a chuva forte castigava o ônibus e a estrada, lágrimas da alegria de Deus por seu Filho Amado ter chegado ao mundo. E o vermelho do Sangue de Maria tinha se misturado ao vermelho da estrada, Sangue do povo!

*Francisco José é coariense, blogueiro e colaborador do site Repórter Cabocla. 

Postar um comentário

0 Comentários