A única serenata da minha vida



Em tempos modernos, dizer que fez ou que fará uma serena de amor para alguém, pode ser visto como algo constrangedor, cafona ou até fora de época. No Brasil a origem das serenatas foi em 1717, quando o viajante francês Le Gentil a trouxe consigo, mas histórias mais antigas aparecem em livros de 1505. 

"O mico" como muitos jovens da geração "Y" podem denominar, hoje é realizada de forma mais tímida por alguns casais apaixonados, mas comigo aconteceu algo diferente. Recebi uma serenata de amor incomum para uma jovem e vindo de uma pessoa que realmente sempre me amou.

O ano era 2002 de 11 de setembro. Já passavam das 22h quando saí do colégio Nossa Senhora do Pérpetuo Socorro, em Coari, onde cursava ainda o ensino médio noturno e de repente algo me deixou estranha. Como de costume, sempre no final da aula, meus amigos da juventude ficavam no jardim da Igreja de Sant´Ana, localizado ao lado da escola. Eles ficavam sentados na grama com bons papos e risadas, até que cada um achasse o momento de ir para casa.  Mas naquela noite, não havia ninguém por lá. 

Mesmo cheia de interrogações por não achar meus amigos, decidi descer a ladeira e ir para casa dos meus tios, onde morava aos 20 anos por opção minha. Estava passando uns meses por lá. Ao chegar em casa, troquei de roupa e fui para o meu quarto me deitar. O relógio seguiu e às 23h45 comecei a ouvir barulhos de motos e carros vindo na direção da rua da minha casa, parecia ser uma carreata. Logo, imaginei que fosse uma carreata de jogo, pois em Coari, quando algum time de futebol ganha, é costume se fazer um passeio pela cidade para "causar" barulho e chamar atenção dos moradores, em tom de festa.

Pois bem, conforme os segundos foram passando, o barulho de gritos e motos foi aumentando e chegando perto da porta da minha casa. Eufórica e curiosa como sempre fui, saí do quarto e fui colocar o ouvido na porta da casa dos meus tios, pra entender o que estava acontecendo e ouvi o que falava o barulho: - "Laninha! Laninhaaaa!!! Laninhaaaaaa!!!" - Nesse momento me desesperei pra abrir a porta, porém meu tio dormia com a chave e acordei ele para abrir. 

Em poucos segundos, o barulho chegou na porta da casa dos meus tios mais alto ficou com todos batendo na porta, senti que era uma multidão de gente e quando finalmente abrimos a porta... - "Parabéns para você! Nessa data querida! Muitas felicidades!!!!.... Sim, estavam todos os meus amigos em cima da kombi do meu pai e outros em cima de motos gritando e cantando parabéns pra mim! Eu fiquei imensamente emocionadaaaaaaaa!!!! Meia noite, uma serenata de amor!!!



Depois de muitos abraços, gritarias, aplausos e felicitações, meu pai abriu a kombi e de lá tirou algumas mesas de ferro, bolo, bebida e colocamos tudo no meio fio da cidade, para comemorar de forma digna como um aniversário deveria ser, com comida e festa!!! Entre os amigos que estavam lá lembro do Fábio (filho do Zezão), De Assis, Mara Tucumã, Artur e entre outros que fizeram da minha noite ou madrugada um dia inesquecível. 

Meu pai em vida, não curtia meus amigos, pois jamais distingui amizades e sempre fui amiga de todos sem ver crença, credo ou cor, pensamento que me segue até os dias atuais. Mas naquele momento, o que me surpreendeu é que a ideia veio dele e ele fez questão de convidar todos os meus amigos, até os que ele não gostava. Pra mim foi a maior prova de amor, além da serenata, é claro. 

Ao final da festa, papai decidiu deixar cada amiga em seus lugares comigo já ao lado dele dentro da Kombi e como não bebia, lembro que fomos em festa pelas ruas de Coari e eu com um sorvete nas mãos terminando uma noite tão gratificante e feliz ao lado de meu pai e meus amigos. A melhor comemoração que tive em toda minha vida.

Logo após essa primeira festa, fiz uma segunda festa com todos os meus amigos, em uma época que amizade era sim de verdade e pude comemorar com eles um dos melhores períodos da minha vida, onde a lealdade, o respeito e o amor sempre prevaleciam.

O porquê de estar contando essa história hoje? Porque hoje completa um mês de falecimento do meu pai. Um mês que o meu grande amor me deixou. Um mês que penso em ir em Coari salvar ele daquela gaveta e daquele caixão, pois ainda acredito que ele está lá  dormindo e dizer - "Vamos meu pai, a vida continua e eu te amo!" - Um mês que um homem que me amou de verdade e fez uma serenata de amor pra mim foi embora e só deixou saudades.  




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